em fase experimental...

Terça-feira, Janeiro 31, 2006

Nos Rascunhos do Ilhéu II


Chegávamos os dois à plataforma para apanhar o metro. A estação estava estranhamente vazia para aquela hora do dia. Cinco horas da tarde. Hora de ponta. Ninguém na estação. Olhámos um para o outro. Não dissemos uma única palavra. Ficámos à espera. Aquele espaço enorme escavado nas entranhas da Terra, próximo dos domínios de Hades, era abundante em luz. Uma contradição! Aquele espaço amplo, toda aquela claridade, desaparecia bruscamente nos seus limites. A escuridão habitava aquele túnel sem fim. Aquele túnel, onde nos levaria? Sabíamos que lá no fim existiria novamente claridade. A famosa luz ao fundo do túnel. Mas, depois desse espaço de luz, outro túnel de escuridão nasceria. E, após este, mais luz. A escuridão dava lugar à luz. A luz dava lugar à escuridão. A noite depois do dia. O dia depois da noite. A estação estava vazia. Só nós os dois. Nós os dois e uma linha amarela. Uma linha amarela contínua que percorria toda a plataforma. Uma linha amarela que entrava pelo túnel e se perdia na escuridão. Uma linha amarela que despertaria na próxima estação para logo depois regressar às trevas, ao domínio dos mortos, às possessões do Deus. Estávamos os dois sozinhos na estação. Olhávamos a linha amarela. A linha amarela não se movia. De quando em quando ouvíamos ruídos vindos do interior do túnel. Mas não conseguíamos distingui-los. Não os conseguíamos identificar. Por vezes esses sons tornavam-se fortes, até ensurdecedores. Passavam por nós e logo diminuíam. Como no efeito Doppler. Não percebíamos o que estava a acontecer. Olhámos um para o outro. Demoradamente. Os nossos olhos estavam secos. Sem expressão. Pela primeira vez desde que ali chegámos tentámos falar um para o outro. Em simultâneo, abrimos a boca e começámos a falar. Falávamos continuamente. Com os nervos à flor da pele, com o medo, com o pânico de estarmos ali fechados debaixo de toneladas de terra e de betão, não parávamos de emitir sons. Não sabíamos se queríamos dialogar ou, simplesmente, falar. Falar por falar. Descomprimir. Estávamos tensos. Não sabíamos o que dizíamos. Não sabíamos o que ouvíamos. Nem tão pouco sabíamos se ouvíamos. De que adiantava estarmos ali os dois a palrar. De que adiantava estarmos ali os dois a falar praticamente sozinhos. Calei-me. Queria ouvir o que me dizia a minha companheira. Olhava para ela e os seus lábios e a sua boca não paravam de movimentar-se. Ela falava, falava, queria atirar para fora toda a tensão acumulada desde o momento em que pisámos aquela plataforma com uma linha amarela a todo o seu comprimento. Falava, mas não emitia qualquer som. A voz dela não chegava aos meus ouvidos. Percebi, então, que ela também não me tinha ouvido. Percebi, então, que ambos falávamos para nós próprios. Estávamos fechados em nós. Vivíamos aqueles momentos como autistas. De nada serviu quebrarmos o silêncio. De nada serviu procurarmos descarregar no outro todos os nossos receios e angústias. Estávamos ali os dois sozinhos. Literalmente sozinhos. Ao lado um do outro, mas um sem o outro. Pouco depois voltou a ouvir-se um ruído vindo das profundezas do túnel escuro. A minha companheira calou-se. Agora, o som começava a aumentar e a aproximar-se de nós. Desta vez, porém, acompanhado de um comboio. Finalmente o nosso transporte chegara. Parou. Abriram-se as portas. A carruagem onde entrámos estava vazia. Procurámos um banco e sentámo-nos. Entretanto, as portas já se haviam fechado. A composição começou a andar. Lá fora, a linha amarela mantinha-se imóvel. No entanto, à medida que nos deslocávamos, a linha amarela ia-se tornando imperceptível. Estava escuro no túnel. Não se via nada. Mas ela estava lá. A linha amarela estava sempre lá. Subitamente, as luzes da carruagem diminuiram de intensidade. Dos altifalantes ouvia-se a voz do maquinista: fala-vos o vosso barqueiro, Caronte, tenho o prazer de vos anunciar que dentro de alguns minutos chegaremos ao nosso destino, boa viagem! Olhámos novamente um para o outro. Desta vez não dissemos nada. Assustados, levantamo-nos. Começámos aos gritos e chamar por ajuda. Tentámos abrir janelas. Accionámos o alarme. Nada aconteceu. Lá fora, no meio da escuridão, seguia a linha amarela. Haveria de ver a luz na paragem seguinte. Ou talvez não. Talvez não houvesse paragem seguinte. Talvez não hovesse luz na paragem seguinte. A linha amarela morreria. O amarelo tornava-se negro.
Próxima estação: Casa de Hades.

Fotografia por Pedro Moreira

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Ilhéu do Mundo IV



O aumento de concentração de gases na atmosfera, devido ao Efeito de Estuda, poderá provocar danos maiores do que os esperados, de acordo com um relatório agora publicado. O mesmo relatório acrescenta que o nível da água do mar poderá subir cerca de sete metros.

Fonte e Fotografia por Associated Press

O clima da Terra está a mudar. Uma verdade que ninguém contesta. No entanto, é difícil para nós, leigos nestas matérias, perceber qual o sentido desta mudança. Durante anos pensámos que a temperatura média global da Terra estava a subir. Esta subida devia-se à concentração de gases na atmosfera, o chamado Efeito de Estufa. Nós, açoreanos, ficámos todos satisfeitos. Era agora que nos íamos transformar em ilhas tropicais. Era agora que íamos receber turistas endinheirados vindos de todo o mundo. Estávamos muito felizes por nos transformarmos em Caraíbas ou em outras ilhas semelhantes às do Pacífico e Índico onde os governantes são ricos e as populações miseráveis. Que felizes nós estaríamos! No entanto, nevou em Lisboa e em Évora e esteve muito frio na Região (8/9º). Afinal, isto está a aquecer ou a arrefecer? Não se sabe bem. O Relatório que introduz este texto refere que a temperatura está a aumentar. Com este aumento, o gelo dos pólos e as neves perpétuas irão derreter. Com toda esta 'nova' água líquida, o nível médio do mar irá subir cerca de sete metros. As consequências são imprevisíveis. As Maldivas desaparecem, as Seycheles desaparecem, grande parte das ilhas do Pacífico desaparecem, Veneza desaparece. E não só... As praias portuguesas, já eram, e Lisboa transforma-se na Veneza do Atlântico. Menos mal... E nós? De acordo com o mesmo Relatório, a corrente do Golfo está alterar-se. Aquilo que nós tínhamos de melhor para oferecer aos turistas banhistas, vai-se embora. Sem sol, sem praia, sem água quente... Vamo-nos virar para terra. Para as touradas, para as procissões, para o património e para o golfe de nevoeiro. E se a temperatura baixar? Ontem ouvi alguém na RTP dizer que a temperatura da Terra está a baixar, que estamos a entrar numa nova era glaciar. Só não entrámos porque o Efeito de Estufa está a retardar o processo. De acordo com o mesmo especialista, é previsível que o próximo Inverno seja tão frio como este. Em que é que ficamos? Será que os responsáveis pelo turismo da Região, ouvindo declarações como estas, vão começar a promover desportos de Inverno nos Açores? Não me admirava nada. Com a sensibilidade que têm para estas questões, talvez entregassem à Terceira esta responsabilidade. Já que a ilha não tem turistas, já que as autoridades regionais tudo fazem para não ter, já que os representantes locais nada fazem para ter, ao menos ficávamos com a neve...

Domingo, Janeiro 29, 2006

Nos Rascunhos do Ilhéu I


Pensei que já não viesses. Depois de quase meia hora à tua espera…
Estou a ver que não devia ter vindo.
Desculpa, não foi por mal. Senta-te.
A que se deve este convite?
Queria falar contigo.
Falar sobre o quê?
Sobre nós.
Não há nada para falar sobre nós.
Também queria ver-te.
Já me viste muitas vezes e já não há mais nada para ver.
Quero olhar para ti.
Olhar? Tiveste tanto tempo para olhar para mim… Porquê isto agora?
Quero ser teu amigo.
Impossível.
És muito importante para mim.
Eu sei. Eu sei. Tu também és muito importante para mim.
Então…
Então… Perdeste a oportunidade.
Perdi?
Sabes bem que sim.
E o que é que eu faço agora?
Não sei, é uma coisa que vais ter que resolver por ti próprio.
Tu nunca gostaste de mim.
Outra vez a mesma conversa. Já cá estava a faltar.
Só querias era ter alguém com quem pudesses estar até orientares a tua vida.
Estás a ser injusto.
Usaste-me.
Usei-te?!
Sim, usaste-me. Enquanto precisaste de mim, quiseste que eu estivesse sempre ao teu lado. Enquanto a vida te corria mal, tinhas que garantir um ombro onde pudesses chorar e alguém com quem pudesses desabafar.
Fizeste o mesmo.
Mas ainda estou aqui.
E eu, não estou também aqui?
Estás. Mas é como se não estivesses. Vieste só para me fazer o jeito. Por ter pena de mim.
Não digas isso.
Tu tens pena de mim. Sabes no que é que a minha vida se tornou.
Nada tens feito para a mudar.
Não é verdade.
Fixaste-te em mim. Pensas que eu sou a única mulher no mundo.
É mentira. Eu já não quero nada contigo.
Não queres? Não parece.
Só porque te convidei para sair?
E as mensagens, e os mails e os telefonemas?
Porque não respondeste?
Não posso estar constantemente ao telefone.
Não? Só se é comigo…
O que é que queres dizer com isso?
Para quem passava o tempo todo ao telemóvel. Para quem me telefonava a meio da noite sem razão aparente. Para quem está agarrada ao computador durante todo o dia a falar não sei com quem… Se não tens tempo é porque eu não significo nada para ti.
E tu, quantas vezes me batias à porta de casa a qualquer hora da noite e eu abria? Quantas vezes saías com outras pessoas e não me dizias nada? Quantas vezes fazias de conta que não ouvias o telemóvel? Tanto que eu fiz por ti…
Cobranças, a esta hora?
Não te estou a cobrar nada. Só estou a tentar que tu percebas que eu deixei a minha família e os meus amigos para estar contigo.
Amigos?
Sim, os meus amigos que me estavam sempre a convidar para sair com eles, ir passar férias com eles, e que eu disse sempre que não.
Tu não tens amigos.
O que é que tu estás a dizer?
É verdade, tu não tens amigos. Conheces muita gente, mas não tens amigos.
Tem graça. Eu é que nunca conheci amigos teus.
Não? Nunca pensaste que eles é que nunca te quiseram conhecer?
Grandes amigos tu tens.
Tinha.
Tinhas? O que lhes fizeste?
Perdi-os.
Como assim?
Perdi-os… E os teus, onde estão?
Não os tenho visto.
Ou eles é que já não te procuram?
Não interessa, não é da tua conta.
Ainda tens aquele namorado?
Como é que foi a tua Passagem-de-ano?
Já percebi.
Não há nada para perceber.
Claro que há. Como pude ser tão ingénuo?
Tu não és ingénuo. Às vezes gostas de te fazer passar por ingénuo, mas não és.
Não? Como é que eu não percebi logo?
O quê?
Como é que eu não percebi que, para estares aqui, é porque estás sozinha.
Eu não estou sozinha.
Não? Claro que não, estás comigo. E sabes que eu nunca te negaria companhia.
Estava farta dele.
E os teus amigos?
Não os quero chatear com os meus problemas.
E chamas-lhes amigos?
Desculpa, eu não tenho que andar por aí a contar os meus problemas a toda a gente.
Não digo a toda a gente, mas deves ter alguém com quem desabafar, algum amigo mais próximo…
Tenho-te a ti.
Não tens.
Não tenho?
Não, não tens. Não me vais usar mais vez nenhuma. Acabou.
Já não és meu amigo? Porque me telefonaste?
Queria estar contigo, falar contigo, tentar recuperar a nossa amizade.
Eu estou aqui.
Estás porque não tens mais ninguém com quem estar.
Tu também não.
Tens razão, eu também não. Perdi-te a ti, perdi os amigos, não tenho mais ninguém. Não tenho com quem falar, não tenho com quem desabafar, não tenho com quem rir, nem com quem sair.
Podemos voltar a ser amigos.
Queres dizer, dá jeito que voltemos a ser amigos?
Não é isso. Precisamos um do outro. Como quando nos conhecemos…
Isso já lá vai. Não gostei da experiência.
Não me vais deixar sozinha, vais?
Já estás sozinha. Eu estou sozinho, tu também podes estar.
Não faças isso comigo.
Não estou a fazer nada contigo. Já está é na hora de fazer alguma coisa comigo.
Não tenho mais ninguém.
Está na hora de ir.
Fica.
Já é tarde.
Não te vás embora.
Até sempre.
Não vás.
Fica bem…


Fotografia por Philippe Cometti

Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

Homenagem de Ilhéu III


Ainda em 1761, o pequeno Mozart surpreendeu enormemente o pai. Segundo Johann Andreas Schachtner (1735-1795), trompetista de Salzburgo e amigo de Leopold, numa carta a Nannerl datada de abril de 1792:

Certa vez acompanhei o seu pai a vossa casa, após o serviço religioso da quinta-feira. Encontrámos Wolfgangerl, que tinha então quatro anos, às voltas com uma pena.

Pai: "O que está a escrever?"
Mozart: "Um concerto para piano; estou quase a acabar a primeira parte."
Pai: "Deixe-me ver; isso deve ser algo realmente notável!"

E era...

Texto adaptado de SAPO
Fotografia de GOOGLE

Quinta-feira, Janeiro 26, 2006

Saudações Praienses IV


Foi com alguma satisfação que tive conhecimento, através do Diário Insular, que a Câmara Municipal da Praia da Vitória esteve a promover o Auditório do Ramo Grande como estúdio de gravação de áudio e vídeo na Bolsa de Turismo de Lisboa. Este estúdio, por onde já passaram diversos artistas e grupos musicais, pode significar, como já o foi no passado, o aproveitar da permanência de cantores e músicos na Praia da Vitória para a realização de espectáculos no próprio Auditório. Desejo, assim, o maior sucesso para este espaço.
Ainda na mesma edição do DI, tomei conhecimento da existência de uma empresa interessada em patrocinar o Auditório, ao abrigo da Lei do Mecenato. É de salutar o interesse dos empresários locais em apoiar as actividades culturais do concelho. No entanto, tal como já o referi em post anterior, “estes apoios não deverão, todavia, servir para alimentar egos, mediocridade e apoio por apoio, isto é, servir para dizer que se apoia a cultura sem a preocupação de se apoiar qualidade.” (ver post Ilhéu Americano V). Além destas preocupações, entendo que deverá ser garantida a independência do Auditório em termos de programação não ficando este refém dos interesses dos eventuais mecenas. No que se refere à descentralização das actividades culturais é importante que tal se faça e, aliás, já o poderia ter sido feito se a Câmara não tivesse programado toda a actividade dos meses de Janeiro e Fevereiro para o Auditório. Além do mais, as actividades previstas para estes dois meses, teriam tido maior impacto e interesse cultural se tivessem sido realizadas fora da cidade onde estas tradições estão profundamente enraizadas e têm origem. Não entendo, porém, como é que se pretende descentralizar se se está a pedir às Danças de Carnaval para, em vez de ensaiarem nas suas freguesias, virem ensaiar para a cidade. Contraditório, no mínimo.
Finalmente, gostaria de fazer uma referência aos dois espectáculos teatrais previstos para o mês de Março que marcarão o início da parceria cultural entre Angra e Praia. Dois grandes espectáculos, dois grandes actores. Espero, contudo, ver na programação cultural das duas edilidades, os grupos locais e a serem promovidos tal como se promovem os grupos ditos “de fora”. Desejo, assim, que o trabalho a desenvolver pelas duas autarquias decorra da melhor forma e que vise, essencialmente, a formação e sensibilização da população para as artes e para a cultura com vista à criação de públicos esclarecidos e exigentes. Uma sociedade culturalmente esclarecida é uma sociedade que não se resigna, que participa, que inova e que cresce. É uma sociedade de futuro. Como já tive ocasião de dizer, não nos prendamos ao passado. Olhemos para o futuro.

Ilhéu Africano V


Um adepto da selecção de futebol do Congo apoia a sua equipa na Taça de África das Nações durante o encontro entre a sua selecção e a selecção de Angola no Estádio da Academia Militar do Cairo, Egipto.
Fotografia por AP Photo/Ariel Schali


Mais uma vez o futebol. Mais uma vez o fenómeno mundial do futebol. E, desta vez, não é nem em Paris, nem em Londres, nem em Lisboa, nem no Rio de Janeiro, é na África profunda, na África negra tribal...
Porque não aproveitar esta dinâmica para levar, também, outras valências dos países ditos desenvolvidos e resolver muitos dos problemas destes povos?

Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

História do Ilhéu VIII


Era Uma Vez…
(Publicado pela primeira vez a 8 de Agosto de 2005)


Era uma vez uma princesa que vivia num belo apartamento duplex numa cidade distante. A princesa vivia feliz por ser princesa. Vida fácil sem necessidades. O dinheiro não lhe faltava. Tinha um bom carro e vestia primorosamente. Era bela, muito bela. Os homens faziam bicha à entrada do prédio. A porteira inventava mil e uma desculpas para que eles desistissem do seu intento. Com uns conseguia, com outros nem por isso. Com outros ainda conseguia tirar alguma vantagem material. Dava sempre jeito uns dinheirinhos a mais. O marido… Não tinha marido. Tinha filha que gastava o que havia e o que não havia. A princesa vivia radiosa naquele seu apartamento. Saía com frequência para ir às compras, visitar as outras princesas suas amigas, ir ao cinema, ao teatro, enfim, gostava de viver. Andava sempre com a sua tiara de diamantes na sua nobre cabeça. Nunca a tirava, excepto para dormir. E enquanto dormia, a tiara repousava na mesa-de-cabeceira ao seu lado. Era vê-la de tiara em todo o lado: na rua, na praia, no cinema, no teatro, nas compras, em todo o lado. A princesa adorava a sua tiara. Tinha-lhe sido oferecida pela sua avó que também era princesa e lhe disse: nunca deixes a tua tiara. Palavras sábias estas da avó princesa. Um dia, a alegre, bonita e divertida princesa conheceu um alquimista. Ficou fascinada por ele. Este alquimista procurava encontrar explicações para o mundo. As suas fantasias levaram a princesa a apaixonar-se por ele. O alquimista deu a conhecer à princesa um universo que ela desconhecia. A princesa viveu intensamente este romance. Estava ainda mais feliz do que era. Aquele mundo novo era tudo para ela. O alquimista era amigo dela. Deu-lhe tudo o que ela precisava. Satisfez-lhe todos os seus desejos. Era a harmonia entre dois amantes. Um dia, sem se aperceber como, reparou que algo tinha mudado. Não conseguiu perceber o quê. Começou a andar desorientada. Sentia-se feliz, porém, desorientada. Certa vez olhou-se ao espelho. Há muito tempo que não olhava para o seu real espelho. Há muito tempo que não conversava com a sua amiga princesa que estava do outro lado. Como era possível isso acontecer se todos os dias olhava o espelho. Nesse dia procurou a princesa do outro lado. Ela não estava lá. Quem lá estava era uma rapariga que parecia ser ela, mas não era ela. A rapariga que estava do outro lado podia também ser uma princesa. Se ao menos tivesse a sua tiara como ela… Foi então que a princesa, que agora não era princesa, reparou que já não tinha tiara. Olhou para cima da mesa-de-cabeceira e ela lá estava, a sua tiara de princesa. Aproximou-se dela. Estava cheia de pó e de teias de aranha. A tiara estava ali esquecida há muito tempo. A princesa já não tinha o mesmo semblante. Estava triste. Andou todo este tempo a pensar que era uma princesa alegre e feliz com a sua tiara de diamantes, mas afinal não o era. Era uma rapariga triste. Bem diferente daquela que saía com as outras amigas princesas, que ia às compras, ao cinema e ao teatro.
A princesa fechou-se em casa e chorou compulsivamente. A porteira estranhou não a ver sair. Subiu até ao apartamento duplex. Bateu à porta. Entrou. Falou com ela. Não era uma princesa como ela, mas deu-lhe preciosos conselhos. A porteira calçou umas luvas e foi buscar a tiara. Não a limpou. Não sacudiu o pó. Não tirou as teias de aranha. Levou-o à princesa para ela o fazer. Só uma princesa pode limpar a sua tiara.

Fotografia por Cláudio Márcio Lopes

Ilhéus do Novo Mundo V



Billy Joel actua num concerto em Madison Square Garden, Nova Iorque. Joel já esgotou onze concertos neste palco, batendo, assim, o recorde de Bruce Springsteen, de dez concertos.

Fotografia de Washington Post

Com um mercado, público, daquela dimensão é possível feitos como este(s). Nós, Portugal, com dez milhões de habitantes, nós, Açores, com duzentos e cinquenta mil habitantes e nós, Terceira, com pouco mais de cinquenta mil, não podemos esperar fenómenos como este(s). Devemos, contudo, procurar dar às nossas populações o melhor que existe em termos culturais nas diversas áreas, sabendo, no entanto, que não teremos, jamais, tais enchentes. Devemos, por isso, apostar na qualidade, na formação e na sensibilização de eventuais patrocinadores/mecenas que apoiem as actividades culturais. Estes apoios não deverão, todavia, servir para alimentar egos, mediocridade e apoio por apoio, isto é, servir para dizer que se apoia a cultura sem a preocupação de se apoiar qualidade.

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Ilhéu Pequenino IV



"As decepções na vida são como quebra-molas - coisas que se tem que ultrapassar para poder desfrutar do resto da viagem."

Por H. Jackson Brown
Fotografia por David Carvalho

Homenagem de Ilhéu II


No passado dia 21 de Janeiro, Sábado de reflexão, fui ao teatro. Não fui ver uma estreia, nem nada que ande por aí há pouco tempo. Fui ver uma peça do Alpendre, no Alpendre renovado. Uma peça já vista por muita gente, não só cá, mas principalmente nos Estados Unidos, na Universidade de Berkeley, para ser mais preciso. Por esta razão, pelo atraso, apresento desde já as minhas desculpas a todos quantos contribuíram para que este texto magnífico fosse levado à cena e lamento não o poder ter visto mais cedo. O trabalho que fui ver é um exemplo de como é possível, com tradições, regionalismos e evocações do passado, por muito tristes que sejam, como é possível, dizia, fazer um trabalho inovador, actual e revelador de uma forte pujança cultural por parte dos nossos agentes e de abertura para o futuro. Álamo de Oliveira mostra-nos que a mulher açoriana deste novo milénio é uma mulher diferente. Uma mulher com uma vida diferente daquela que teve a sua mãe e a sua avó mas, muitas vezes, também substancialmente diferente da sua irmã. Da sua irmã que ainda vive uma vida de xaile negro à cabeça, à espera do marido que está longe, preocupada com o jantar a dar aos filhos e em satisfazer o marido na cama, da sua irmã que ainda sonha com a América e com um frigorífico recheado de comida, abundância e fartura.
A mulher de hoje tem muitas faces. Tantas quantas as inúmeras personagens interpretadas pelas três actrizes em palco: a Judite Parreira, a Filomena Ferreira e a Carmo Amaral. É de destacar, no entanto, o trabalho das duas primeiras que, não sendo actrizes “lá de fora”, estão à altura de poder pisar as tábuas de qualquer palco deste e de outros países. O defeito destas duas mulheres é o facto de serem de cá e, por esta razão, não conseguirem encher salas, revelando, assim, o nosso mais profundo provincianismo. Parabéns Álamo. Parabéns Judite. Parabéns Filomena. Espero voltar a vê-los juntos.Não posso terminar sem que antes faça uma referência à nova imagem do Alpendre. Quando ali entrei senti que tinha entrado num teatro. Que tinha entrado num teatro com alma, com passado e com uma imagem de futuro. Sem dourados, veludos ou cristais, o Alpendre abre-se a todos e não exige gravata. O espaço é intimista e acolhedor e as pessoas têm vontade de ficar. Mais uma vez, parabéns!
Fotografia por Luís Zilhão

Ilhéu Africano IV



Militares ocupam alguns dos lugares do Estádio Militar do Cairo, Egipto, com capacidade para 28500 espectadores, no jogo entre as selecções de Angola e dos Camarões para a Taça de África das Nações.
Fotografia por AFP/Cris Bouroncle
Mais uma vez, futebol. Agora, África, mais precisamente, Cairo. Na capital do Egipto disputava-se o jogo entre as selecções de Angola e dos Camarões, na bancada, o colorido das fardas dos muitos militares ali presentes parece proposidado... É o espectáculo do futebol.

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Ilhéu Pequenino III



Esperava outra coisa de ti, desiludiste-me...


Fotografia por Bart

Ilhéu Presidencial II


Cavaco Silva - Presidente da República



Fotografia: Estela Silva/Lusa

Domingo, Janeiro 22, 2006

Ilhéus do Velho Continente XIII


“Quantas vidas por um casaco?”. A questão é levantada por um grupo de cerca de 70 activistas do movimento Anuma Naturalis, que se manifesta através da nudez, numa rua de Barcelona, Espanha, contra a morte de martas para o fabrico de casacos de peles. (Público)
Foto: Toni Garriga/EPA

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

Ilhéus Latinos III


Um figurante apresenta-se num espectáculo para os rebeldes Zapatistas na estância balnear de Playa del Carmen, Península do Iucatão, México. Os rebeldes Zapatistas percorrem o país numa campanha coincidente com as eleições presidenciais mexicanas deste ano. REUTERS/Victor Ruiz


O México prepara-se para ter as suas eleições presidenciais este ano. Nós, temos as nossas já no próximo domingo, 22, e, espero eu, que só tenha que voltar a votar para a Presidência da República em 2011 para a reeleição de Cavaco Silva.
Tal como no passado se assustavam as pessoas com histórias de papões vermelhos que comiam criancinhas e com isso se tentava que essas mesmas pessoas não votassem muito à esquerda, hoje, a mesma esquerda, e não só, procura fazer crer que os papões mudaram de cor e que agora habitam os domínios da direita (centro-direita, entenda-se). Afinal, a história é a mesma, os protagonistas e os seus contadores é que são outros. Julguei que após Abril de 74, quando os militares, e não a esquerda como muitas vezes tenta fazer parecer, fizeram a revolução e instauraram o regime democrático em Portugal, fosse possível ser-se de esquerda ou de direita sem constrangimentos e que fosse possível estar contra o poder instituído. Parece que assim não é. Parece que é crime ser-se de direita e de se estar em oposição às políticas implementadas. Parece que o que todos devemos fazer, é estar do lado da esquerda instalada e oficial (veja-se a quantidade de gente que, por puro oportunismo, substituiu a laranja pela rosa). Não será esta tentativa de hegemonia cromática (rosa com muitos espinhos) uma forma encapotada de totalitarismo?

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

Ilhéu Pequenino II


Por vezes acordamos e percebemos que entrámos num jogo perigoso. Temos duas alternativas: ou jogamos, ou desistimos.


Fotografia por Ana Pinto

Ilhéus do Velho Continente XII


Um visitante observa uma instalação executada pelo artista plástico norte-americano Dan Flavin, em exibição na Hayward Gallery, Londres. (BBC)


Sem comentários.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

História do Ilhéu VII


Rumo a Norte 2
14 de Setembro de 2005

Entrou no autocarro todo sujo de pó. O pó depositado na sua roupa ao longo de todo o tempo que ficara sentado na paragem à espera que o autocarro, o que vinha do sul a caminho do norte, parasse e trouxesse alguém. Aquele pó dava à roupa uma tonalidade que variava entre o castanho e o vermelho, uma tonalidade cor de terra, da terra onde viveu desde o dia em que nasceu até ao dia em que, depois de ficar sozinho, partiu. Partiu para o norte, para um lugar que ele não conhecia. Para um lugar onde julgava haver mais gente. Gente sem pó. Gente sem terra. Esse lugar ficaria longe? Ficaria perto? Não sabia. Só sabia que, para lá chegar, tinha que entrar no autocarro que vinha do sul a caminho do norte. Tinha que o fazer parar. Tinha que ter a coragem de deixar para trás uma vida de muitas alegrias, muitas tristezas e muita solidão. Ninguém como ele sabia tão bem o significado da palavra solidão. Ninguém como ele tinha vivido sozinho numa cidade, sem família, sem amigos, sem conhecidos, sem pessoas a quem dar bom dia, para quem olhar ou para oferecer um simples sorriso. Não tinha com quem falar. Talvez já se tivesse mesmo esquecido de como articular as palavras, dos seus sons e dos seus significados, de construir frases, de comunicar. Recordava-se vagamente da forma como se dirigir às pessoas e das atitudes a tomar quando encontrasse alguém. Perdeu o contacto com o mundo. Perdeu o contacto com os seus semelhantes. Aquele homem viveu meses a fio sentado num banco sem mais ninguém. Sabia que existiam outros seres iguais a si. Via-os passar ciclicamente perto de si dentro do autocarro que, vindo do sul, rumava a norte. Nunca estabeleceu qualquer contacto com os passageiros. Isto, claro está, se não se considerar contacto o simples trocar de olhares entre os passageiros, escondidos por detrás das janelas do autocarro, e o homem coberto de pó sentado no banco da paragem daquela localidade perdida algures entre o norte e o sul. Naquela tarde, quando viu a nuvem de poeira a sul dirigir-se para norte, pôs-se de pé. Quando o autocarro de aproximou, levantou o braço dando sinal ao motorista que parasse. O motorista não parou de imediato. O motorista já não se lembrava que naquele lugar havia uma paragem, que naquele lugar havia gente. Alguns metros mais à frente, o autocarro parou. Seguidamente, abriu-se a porta da frente. O homem coberto de pó olhou para o veículo mantendo-se estático por momentos. Não pestanejou, não fez um único movimento. Até o coração parecia ter parado. Depois, sem olhar para trás, o homem coberto de pó dirigiu-se até à porta do autocarro e entrou. O motorista falou com ele, ele olhou para o motorista e nada disse. Já não se lembrava o que fazer perante uma situação como aquela. Aliás, era a primeira vez que estava numa situação como aquela, era a primeira vez que entrava num autocarro. O motorista voltou a dirigir-lhe a palavra. Ele respondeu com a única que se lembrava: Norte
.
Fotografia por Alfredo Muñoz de Oliveira

Ilhéus do Velho Continente XI


O Football Globe Germany, um globo gigante em acrílico, foi colocado junto à Torre Eiffel, em Paris, no passado dia 17 de Janeiro. Esta escultura de nove metros, que percorrerá o planeta até ao Campeonato do Mundo de Futebol, será oficialmente inaugurada no dia 19 e permanecerá na capital francesa até ao dia 9 de Fevereiro. (REUTERS/Philippe Wojazer)


A máquina promocional do Campeonato do Mundo de Futebol já há muito tempo que está a funcionar. No entanto, agora torna-se mais agressiva e, à falta de uma tocha olímpica, a Alemanha criou esta escultura gigantesca para percorrer o globo e divilgurar o grandioso evento. A febre do futebol continua a fazer movimentar multidões e milhões. É um fenómeno planetário. Afinal, não somos só nós, portugueses, os que vivem para o futebol. Seremos, talvez, isso sim, os únicos que não sabem tirar partido dele...

Ilhéu Africano III


Ao pôr-do-sol, um gigantesco bando de pássaros sobrevoa um parque em Argel à procura de um pedaço de terra disponível para pernoitar. (AFP)


Enquanto, em terra, os humanos se preocupam com o que fazer com as galinhas, patos e perus vindos das terras do Império do Meio e do Império do Sol Nascente, as aves deste lado do mundo desfrutam e gozam a luz e a calmaria do Sol Poente. Nós, ficamos a olhar para elas. Invejamos a sua liberdade. Assim não pode ser. Vamos acabar já com isto. Que tal um vírus?

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

Ilhéu Pequenino



...e aí, o primeiro gato fofinho diz ao segundo gato fofinho: Pronto!

Ilhéus do Velho Continente X


O «fazedor» de gnomos Reinhard Griebel trabalha numa das suas peças na cidade de Graefenroda, Alemanha Oriental, tida como o berço destas minúsculas criaturas míticas. (BBC)

Estes pequenos seres fantásticos, segundo a tradição, habitam o seio da Terra, guardando tesouros. Como se vê, nascem na Alemanha e daí se espalham pelo mundo. Ora, basta olhar para o mapa da Europa e logo se percebe que estas criaturas de perna curta não gostam de andar muito e, mais do que o seio quente da Terra, têm especial predilecção pelo frio. Ficam-se pelo centro da Europa, ou viajam até ao norte.

Será que alguém lhes disse que nas terras do sul há sol, praia, boa comida e um povo que os receberá de braços abertos e adora tudo o que vem de fora?

Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

História do Ilhéu VI


Vermelho Vivo
31 de Agosto de 2005

No momento em que ela, vestida de vermelho, entrou na igreja e se ajoelhou em frente ao altar para humildemente pedir perdão, a cidade já tinha perdido toda a sua cor. Agora, não era mais do que uma mistura de diferentes tonalidades de cinzento, preto e branco. Os cinzentos dominavam. Os edifícios distinguiam-se pelo cinzento mais claro ou mais escuro. As sombras eram negras. A água era branca. As pessoas perderam a cor. A roupa perdeu a cor. Os carros perderam a cor. As árvores perderam a cor.
No fim de tarde daquele dia, quando saiu de casa, o mundo era como sempre o tinha visto, colorido. Muito colorido. Durante os dias, semanas, que se antecederam à sua ida à igreja, ela fechou-se em casa. Dizia estar deprimida. Ficou em casa pregada à televisão. Aos canais de notícias da televisão. Consumia todas as notícias e reportagens de tragédias, de dor e de sofrimento. Não era difícil, as estações de televisão bombardeavam diariamente os espectadores com horas e horas de notícias com este tipo de conteúdo. Ela devorava e absorvia tudo isto. Ficava deprimida, preocupada com aquelas crianças, aquelas mulheres, aqueles povos que sofriam, passavam fome, eram vítimas de guerras e de injustiças. Queria fazer qualquer coisa que pudesse ajudar aquelas pessoas. No entanto, sentia-se impotente para o fazer. Foi ficando em casa. Foi ficando apoderada pela depressão. Isolou-se do mundo mais próximo. Passou a viver o mundo longínquo que lhe chegava a casa através do ecrã do seu televisor. Um dia, num programa de debate emitido entre dois serviços noticiosos, um especialista em assuntos esotéricos, dizia que uma boa forma de alguém contribuir para a felicidade e a justiça no mundo era começar por fazê-lo consigo próprio e com os que o rodeiam. Poderia começar-se pela imagem. Vestir algo de cores vivas e alegres e fazer o que mais se gostava. E sair à rua, fundamental, sair à rua. Ouvido aquilo, pensou que aquela mensagem se dirigia directamente a ela. Tinha que pôr em prática aquele método o mais rapidamente possível. Começou pela imagem. Vestiu um vestido de seda vermelha sem ombros, um decote acentuado, sem costas, saia comprida rodada. O vestido assentava-lhe como uma luva. Tinha sido concebido a pensar naquele corpo, para aquele corpo. Depois, tinha que ir fazer o que mais gostava. Foi às compras. Gastou rios de dinheiro em artigos que pretendia dar como presente. Seguidamente, pensou que seria bom ir fazer umas visitas e ajudar aqueles que mais necessitavam. Começou por ir a um hospital de crianças amputadas e ofereceu algumas das coisas que tinha comprado. Ofereceu sapatilhas de marca a todos. Mais tarde, foi a um centro de acolhimento para pessoas que viviam na rua e ofereceu chinelos de quarto em camurça. Daqui, foi até um lar de idosos e, às senhoras, ofereceu conjuntos de lingerie sensual e, aos senhores, embalagens de preservativos com sabores. Para terminar, passou por um posto de apoio a doentes que sofriam de parkinson e distribuiu diários e esferográficas de tinta permanente para registarem os progressos e desenvolvimento da doença durante os tratamentos. Terminado este périplo por locais onde existiam pessoas à espera da sua ajuda, considerou por bem dedicar algum tempo a si, foi ao cinema, uma das suas actividades preferidas. Ia ver um filme que tinha estreado na semana anterior e que, por ter estado todo este tempo em casa, não tinha tido oportunidade de ver. Logo após ter cumprido todas as formalidades necessárias para poder entrar na sala, entrou e sentou-se. O filme ia começar. Estranhamente, o filme não era colorido. Nunca tinha ouvido, nem lido nada que dissesse que aquele filme era a preto e branco. Era impossível que um filme que retrata a história de um pintor de graffitis e mestre de hip hop fosse a preto e branco. Mas estava a ser. A sala estava completamente escura, não conseguia ver mais ninguém. Viu o filme durante cerca de quinze minutos. Não aguentou mais. Levantou-se e dirigiu-se à porta da sala de cinema. Quando abriu a porta foi surpreendida pela total ausência de cor. O mundo lá fora era a preto e branco. Começou a correr em direcção à saída do edifício. Também aí tudo era a preto e branco. A rua era a preto e branco. Várias tonalidades de cinzento misturadas com preto e branco. O vestido não tinha mudado de cor, continuava vermelho vivo.
Fotografia por Rodrigo Silva

Sentimento Ilhéu IX


Se pegarmos num dicionário e procurarmos a palavra 'paralela', encontramos: paralela (s. f.) - linha ou superfície equidistante de outra em toda a extensão. (fonte PRIBERAM) Isto significa, por outras palavras, duas linhas que, embora se acompanhem eternamente, nunca se hão-de cruzar. Definição fria esta que, como todos os conceitos matemáticos, é fria como os números e as variáveis que, mais cedo ou mais tarde, irão transformar-se em equações, sistemas de equações e fórmulas que definirão, com a objectividade necessária, o conceito de paralela. Duas linhas paralelas passarão, assim, a ser propriedade de meia dúzia de iluminados que, com a frieza e objectividade da ciência, vibrarão e terão orgasmos múltiplos a olhar para uma sequência de números e letras a negro inscritas numa folha de papel branca. Para estes, um outro mundo se lhes fica vedado. Um mundo onde duas linhas paralelas, se assim o entenderem, se podem vir a encontrar, mesmo que só no infinito. Dir-me-ão, deixam de ser paralelas. É verdade! Deixam de ser paralelas. Os especialistas chamam-lhe concorrentes. Haverá alguma razão para que, quando duas linhas tenham vontade de se encontrar, passem a concorrer, a competir uma com a outra? Não creio. Bom, existe sempre a possibilidade de se tornarem coincidentes. De se tornarem numa só. De se fundirem...
O mundo em que vivemos é feito de paralelas, concorrentes e coincidentes. Duas vidas podem seguir eternamente o seu curso em paralelo. Caminharem ao lado uma da outra e nunca se tocarem. Durante toda a sua caminhada pelo tempo observam-se, olham-se, admiram-se. Têm receio em aproximarem-se. Se uma ceder, se uma procurar a outra, a sua distância a ela vai diminuindo acabando por encontrá-la. Nesse momento, haverá um ponto em comum entre as duas. 'Da intersecção de duas rectas concorrentes resulta um ponto'. A partir desse ponto, desse único ponto, a recta procurada, a que não procurou a outra, vai seguir o seu caminho. A que cedeu, a que foi procurar, também seguirá o seu percurso e, a partir desse mesmo ponto, as duas rectas passarão a divergir, afastando-se continuamente, acabando por ficarem infinitamente afastadas uma da outra. Por esta razão, as duas rectas, individualmente, têm medo de ceder, têm receio em tornarem-se concorrentes. O ideal, se se quiserem encontrar, é cederem ambas. Aí, a aproximação é idêntica nos dois lados. Nunca se cruzarão. Nunca competirão. À medida que forem cedendo, vão-se chegando e, no limite, tornar-se-ão coincidentes. Duas rectas, duas linhas, duas vidas, passam a ser uma só e caminharão até ao infinito, cruzando o espaço...
Fotografia por Márcia Mendonça

Ilhéus do Oriente VI


Um trabalhador coloca lâmpadas num mar de candeeiros, que ornamentam o templo, para as comemorações do Ano Novo chinês em Kuala Lumpur. A comunidade chinesa na Malásia prepara-se, assim, para a chegada do Ano do Cão. (Washington Post)

Este é o trabalho minucioso e de paciência que é levado a cabo pelos chineses imigrados na Malásia para que a sua cultura e as suas tradições não se percam no país de acolhimento. Não sei se esta atitude é apoiada, ou não, pelo governo da Malásia. O que sei, é que o mesmo governo permite estas manifestações e abre espaço para que as minorias possam vivê-las.

A propósito, alguém sabe que horas são em Kuala Lumpur?

Domingo, Janeiro 15, 2006

Sentimento Ilhéu VIII


Depois de "A Cidade de Deus", Fernando Meirelles mostra-nos, mais uma vez, as cores, os sons e os cheiros daqueles de quem o mundo se esqueceu.

Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo - de 13 a 19 de Janeiro
Auditório do Ramo Grande - 22 de Janeiro

Sábado, Janeiro 14, 2006

Ilhéu de Pecado II


Adão e Eva


Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a cara lhe pedia.

– E cada um de nós sonhou que o achara...

E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
... Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

– Meu nome é Adão...

E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
– Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado...

Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos,
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-se tudo!...

Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado,
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho Pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...

Eu, os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce...

Depois...

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
– Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...

Continuamos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!

Poema de José Régio
Fotografia de Jean Jacques André

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

Ilhéu do Bósforo


Populares observam Mehmet Ali Agca, o homem que em 1981 atentou contra o Papa João Paulo II, à chegada a um centro de recrutamento militar em Istambul, após a sua libertação da prisão.
Washington Post
Sem sabermos muito bem se a Turquia é Europa ou Ásia, ficamos desconfiados. Na realidade, independentemente da sua localização, o que nos preocupa é a sua confissão religiosa. Muçulmana, todos sabemos. E depois? Nós, os portugueses, e os europeus em geral, consideramo-nos de tradição cristã, de raiz cristã, embora isso, dizemos nós, não seja muito importante. Os nossos estados são oficialmente laicos. Religião é assunto que não entra na discussão política. Religião é assunto para fanáticos, para países não civilizados. Mehmet Ali Agca foi libertado. Este homem, que atentou contra a vida de João Paulo II, está em liberdade. Ficámos chocados. Sentimo-nos traídos. A sua libertação foi notícia em todo o mundo ocidental (cristão, entenda-se). Estaremos nós preparados para conviver irmãmente com o chamado mundo árabe? Estaremos nós preparados para partilhar o nosso espaço com eles? Estaremos nós preparados para receber a Turquia no seio da União Europeia?

Ilhéus do Oriente IV


A neve acumula-se no chapéu de uma idosa em Tsunanmachi, Japão. O recorde de queda de neve já matou cerca de 70 pessoas em todo o país.
Washington Post
Mais do que a beleza da fotografia e a capacidade de resistência ao frio desta anciã japonesa, é de registar que, mesmo num país habituado a lidar com todo o tipo de catástrofes naturais e com uma protecção civil experiente, ainda morrem seres humanos devido a vagas de frio. Estaremos nós preparados, nós que até com temperaturas de 17 ºC já andamos de luvas e cachecol, temos aquecedores ligados e lareiras acesas?

Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

Sentimento Ilhéu VII


Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar.
Poema por Inger Christensen
Fotografia por Paulo J. Ribeiro

Ilhéus do Novo Mundo IV


Um dos elementos do espectáculo Slava's Snow Show caminha no interior de um globo de plástico gigante durante a apresentação à imprensa de um novo modelo da Chrysler, o Caliber, a lançar em 2007. Esta apresentação decorreu no âmbito do North American International Auto Show em Detroit, Michigan. O Caliber irá substituir o Dodge Neon.
REUTERS/J.P. Moczulski)

Este palhaço observa incrédulo o que se vai passando para lá da superfície terrestre. No entanto, é ele, com a sua determinação e o seu movimento, que faz com que a Terra gire, com que a Terra viva, com que a Terra ande.

Será que é por viver no seu interior e ver o que lá se desenrola que continua... palhaço?

Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

Ilhéus da Índia III


Este vendedor de flores artificiais espera pelos seus clientes à porta da sua loja, na Cachemira Indiana, por ocasião do festival Muçulmano de Eid al-Adha em Srinagar.
AFP/Tauseef Mustafa

Pelo colorido da fotografia poder-se-ia dizer que ali se respira ar fresco e perfumado mas, afinal, não passa de mais um ambiente artificial criado para iludir os mais incautos.

O que consegue fazer um bom cenário...

Saudações Praienses III


Acabei de chegar de viagem e, como sempre o faço, passo os olhos pelas edições do Diário Insular publicadas durante a minha ausência, a fim de me inteirar dos acontecimentos ocorridos na região e, em particular, na ilha. Num dos números, o da passada sexta-feira, 6 de Janeiro, deparei com uma notícia referente ao Auditório do Ramo Grande com o título “Viola da Terra exposta no Auditório da Praia”, passei à sua leitura. Quando concluí, fiquei com a estranha sensação de que o Auditório do Ramo Grande, que desde a sua inauguração nos tem habituado a uma programação multicultural, multifacetada e de referência, prescinde agora do seu passado e da excelência da sua oferta tida como referência um pouco por todo o lado. Não quero dizer com isto que sou contra e que não apoio a nossa cultura e as nossas tradições, antes pelo contrário, entendo que o nosso património deve ser preservado e divulgado ao mesmo nível que se divulgam outros estilos, outras correntes e outras artes. Não devemos, contudo, esquecer que existe um mundo para lá das nossas portas. Um mundo que não pára, um mundo que cria, um mundo que inova, um mundo que se desenvolve. Não nos podemos fechar, temos que alargar os nossos horizontes e abrir o mundo às nossas populações, temos que inovar e não ficar presos ao passado com medo que o futuro nos consuma. O futuro é inevitável, o futuro está aí. Com esta política cultural e este tipo de programação, pergunto-me: haverá espaço para os artistas plásticos que enveredam por uma linha de experimentalismo e modernismo? Terão que começar a pintar hortênsias, o ilhéu das Cabras e os Impérios? Haverá espaço para exposições de valor cultural reconhecido? Teremos que ir ver exposições de caixas de fósforos ou de pacotes de açúcar que um qualquer amigo tenha em casa? Haverá espaço para os grupos de teatro experimental com propostas arrojadas e inovadoras e com textos de autores de renome internacional? Terão que dedicar-se às comédias brejeiras e aos espectáculos de variedades dos serões de sábado? Haverá espaço para os músicos que procuram outros acordes e sonoridades? Terão que tocar todos viola da terra e ferrinhos e limitarem-se às partituras da chamarrita e da sapateia? Haverá espaço para os cantores que procuram novos registos e tonalidades? Terão que dedicar-se à cantoria e às cantigas ao desafio e ao registo de voz característico dos ranchos folclóricos? Teremos que andar todos de galochas ou descalços? Em suma, temo que o Auditório do Ramo Grande, embora o seu nome nos remeta para as tradições mais profundas do concelho da Praia da Vitória, se transforme num museu etnográfico, em vez de ser um espaço de divulgação cultural e de futuro. É pena. É pena que a Câmara da Praia entenda que cultura é sinónimo de etnografia e de passado. É pena que a Câmara da Praia corra o risco de perder homens e mulheres de cultura e de grande capacidade criativa. É pena que a Câmara da Praia se dê ao luxo de perder público esclarecido, que acaba por ir para outros espaços culturais, só por estar mais preocupada em ter salas cheias, aliás coerente com todas as medidas populistas até agora implementadas com o objectivo de captar a simpatia dos munícipes, mas isto é conversa para outra altura.Em suma, esta Câmara tem uma visão curta do que é e do que pode ser a cultura e o seu futuro. A Praia da Vitória e Portugal pertencem a uma Europa moderna, inovadora, do século XXI e que não parou no tempo. Uma Europa que cresceu e evoluiu. Uma Europa que não se esqueceu do seu passado. Preza-o, estima-o e projecta-o no futuro. A Praia da Vitória está, ou estava, na vanguarda cultural da Região. Não percamos este rumo.

Terça-feira, Janeiro 10, 2006

Ilhéus Latinos II


Electrificante!
Os cabelos espetados de um casal de jovens mostram os efeitos da electricidade estática existente no ar durante uma tempestade eléctrica em Las Flores, 90 km a leste de Montevideo, Uruguai. (AFP/Stringer)

Sentimento Ilhéu VI


O tempo passa, o tempo passa, senhora
Ai! Não só o tempo, nós também.

Texto por Pierre de Ronsard
Fotografia por Cláudia Barbosa

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006

Ilhéu Oriental XII


Álvaro Domecq: A Escola Espanhola de Equitação Álvaro Domecq exibe um dos seus cavalos no Royal Equestrian Festival em Muscat, capital de Omã. (Fotografia por: AFP/Mohammed Mahjoub)

Ilhéu Oriental XI

Uma tradicional equipa de bombeiros exibe as suas habilidades em escadas de bambú. Esta apresentação teve lugar em Tóquio, no passado dia 6 de Janeiro, por ocasião das comemorações do dia de Ano Novo. (Fotografia por: AP Photo/Katsumi Kasahara)

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Pedido de desculpas

Caros amigos visitantes do Ilhéu do Norte, como é fácil de constatar, desde o passado dia 23 de Dezembro que não tenho escrito nada no blog. A razão prende-se com o facto de me encontrar de férias fora de Portugal e de ter tido alguma dificuldade em aceder a um terminal de computador (bem, os terminais existem, o tempo para me sentar à frente deles é que não!), por outro lado, e aí sim tenho dificuldade, é encontrar um teclado com acentuação e c`s cedilhados. Se existe outra forma de o fazer, assumo a minha ignorância, não sei como. Prometo que quando encontrar um teclado em condições corrijo este texto e que na próxima segunda-feira, 9 de Janeiro, voltarei à escrita diária. Até lá, mais desculpas, e votos de um excelente ano de 2006 com muitos blogs, muitas leituras, vontade de saber e de opinar.
Até lá!